27/07/10

Novas buscas

Multiplicam-se por estes dias iniciativas em busca de novos públicos e buscas pessoais pelo diferente, o que sai da rotina, tantas vezes sufocante, de um ano de trabalho ou estudo.

Mesmo dentro da Igreja, há uma preocupação de chegar a locais onde não se chega habitualmente, através dos mais jovens, promovendo acções de voluntariado e de missionação.

Seja pela existência, efectiva, de maior disponibilidade, seja pelo facto de haver rotinas que não se podem manter pelos mais diversos motivos, o tempo de maior calor convida, em Portugal, a novas buscas.

Em primeiro lugar, seria justo que fosse uma busca de si próprio, da identidade atropelada pela altíssima velocidade a que se desenrolam os dias, debaixo do bombardeamento de obrigações, preocupações, projectos e necessidades que nem sempre são fáceis de cumprir ou satisfazer.

O actual estado da sociedade, martirizada pela crise económica, deve levar ainda a um questionamento sobre a perda de uma certa identidade social em que existia maior preocupação pela precariedade alheia e se multiplicavam respostas mais ou menos espontâneas, sem esperar pela iniciativa “salvadora” do Estado.

Essa busca pessoal e comunitária precisa, como têm afirmado vários responsáveis da Igreja Católica, de valores que a guiem e enquadrem, para que as respostas façam sentido e o caminho seja identificável e, acima de tudo, percorrível.

Nesse sentido, é lógico pensar que novas buscas precisam de novas propostas, de nova linguagem, de compromisso em campos até agora inexplorados ou julgados indignos por quem tem a responsabilidade, em função da sua fé católica, de atender a qualquer drama que atinja um ser humano que esteja perto de si.

A massa com que este novo mundo se pode construir é, necessariamente, muito moldada pelo que for incutido nas novas gerações e por isso será interessante acompanhar de perto o que se vai fazer este Verão, um pouco por todo o país, com destaque para a peregrinação da Cruz da Jornada Mundial da Juventude.

Propostas repetitivas, estereotipadas, decalcadas do passado não mobilizam nem atraem quem vive em novas buscas, sem compreender muitas vezes o sentido daquilo que vive nem vislumbrar os sonhos do que verdadeiramente gostaria de viver. Um desafio destes merece um compromisso à altura, por parte de todos.

Octávio Carmo


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20/07/10

Parar para recomeçar

A história terá muito de realismo e alguma ficção. Conta, muito simplesmente, a "rotina" de um professor universitário. Ao longo de cada ano lectivo preparava aulas, reunia livros para as suas estantes já repletas, escrevia conferências e discursos. Na entrada de cada Verão eram bem visíveis as provas de um ano intenso de trabalho, ensino e investigação.

Antes das semanas de descanso, e contrariamente a qualquer estratégia mais ou menos previsível, não se preocupava em catalogar dossiers, agrupar temáticas estudadas ou ordenar arquivos. Porque a maioria dos papéis tinha por destino… a reciclagem! No ano seguinte era dever do "amigo do saber" iniciar novas procuras, reler fontes e reescrever planos de aulas ou palestras.

Moralismos à parte, serve a história para valorizar o tempo de férias como oportunidade para recomeçar, aperfeiçoar, recriar. Possível a partir de um tempo de paragem, de lazer, de estar com outros e com o Outro, sem temer a passagem das horas.

Um ciclo claramente experimentado por muitos "habitantes" da mobilidade humana, emigrantes ou imigrantes, que durante as férias têm a possibilidade de regressar à intimidade dos familiares, amigos e de todas as "coisas" da terra, pertença também da história de cada pessoa.

Entre nós, portugueses, essa experiência passa por estes dias. A chegada de quem está espalhado por muitas comunidades é uma oportunidade de encontro e lazer que se estende por todo o país.

Um tempo de descanso que permite recomeços sempre novos e reúne forças para outro ano de trabalho capaz de gerar, com criatividade, a construção do bem e da beleza. E quantas histórias de famílias migrantes não o demonstram!

Assim, as férias serão dias de desapego do acessório, de libertação do velho que permite a descoberta mais firme do essencial, da identidade. Para que o recomeço desponte como possibilidade de oferta pessoal na construção da felicidade comum.

Paulo Rocha


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13/07/10

Passemos para a outra margem

Penso muitas vezes na sugestão que Jesus faz aos discípulos, mais do que uma vez: "Passemos para a outra margem" (Mc 4,35)

Há um sonho do qual não podemos desistir: o sonho de que a Igreja, em cada uma das suas comunidades, se pareça também com uma família alargada em gozo de férias e não apenas a um laborioso centro de prestação de serviços, sobretudo se anónimo ou impessoal.

Nessas férias seria diferente! Saberíamos o nome uns dos outros e mais: daríamos tempo para saborear a história e a presença que cada um é. Não seria o relógio a presidir aos nossos encontros, nem a utilidade imediata a emprestar justificação às nossas procuras. Pelo contrário: estar em comunidade seria como caminhar junto ao mar, sem nenhuma pressão de horários (exteriores e interiores), entregues ao prazer da contemplação e da companhia. Ou como passear pela montanha, entusiasmados por visões alargadas onde a paisagem refulge numa transparência que quase havíamos esquecido.

Nessas férias seria diferente! Aboliríamos o rotineiro fast food religioso, que apenas serve para enganar a fome, deixando que a alma se alimente e revitalize como precisa: no silêncio e na palavra, no encontro e no dom, na escuta e na prece. Buscaríamos juntos, como peregrinos experimentados, a abundância ainda intacta das fontes que nos irrigam, sentindo-nos depois reconciliados e gratos pela fantástica vizinhança delas. E faríamos o mesmo com a beleza dos lírios, da qual Jesus falou, com o dourado apaziguador que podem ter os campos à nossa passagem ou com o canto dos pássaros cada vez mais alto.

Nessas férias seria diferente! A Refeição constituiria o centro, mas como deliberado espaço de multiplicação para a vida: partilhando o pão que expande a graça, bebendo o vinho que amplia a festa.

José Tolentino Mendonça


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06/07/10

«Também vos quereis ir embora?» (João 6,60)

Sabe-se como se lança um rastilho como meia notícia que a pressa dos media engole de imediato e joga para o papel ou para a informação em linha, ou mesmo nas redes sociais para ser o primeiro a anunciar

Não estão fáceis os tempos para a Igreja. Todos os dias vão surgindo novas notícias de escândalos, processos, condenações, abusos. Caem precipitadamente nas agências e são por vezes claras, directas, apesar de desagradáveis para os católicos. Outras são falsas embrulhadas em meias verdades e com uma interpretação claramente enviesada, sempre com o dedo condenatório para membros do clero em diversos graus de responsabilidade na condução da Igreja a nível local ou universal. Nada nos espanta: nem os factos, nem a maneira como são descritos, distorcidos, dramatizados, sendo, quantas vezes, opinião antes de serem acontecimento. Isto não se passa apenas com a Igreja, mas com todos que estão alguns centímetros acima da grande multidão anónima e que, por via da visibilidade, colocados em cadafalso de julgamento e forca. Que um dia possivelmente foi trono de glória e ovação do mesmo povo anónimo e aparentemente inocente.

Mas há dados que permitem, no que diz respeito à Igreja, objectivar causas e intenções. Sabe-se como se lança um rastilho como meia notícia que a pressa dos media engole de imediato e joga para o papel ou para a informação em linha, ou mesmo nas redes sociais para ser o primeiro a anunciar. Quantas vezes a primeira-mão é a primeira mentira. Sabe-se de forças, movimentos, associações, secretas ou não, que cozinham nas suas caves de mistério materiais informativos para que na linha final todos aceitem o que sempre estes senhores quiseram dizer: que a especialidade da Igreja é ser hipócrita, hábil em absolver os seus próprios pecados mas implacável com os que se atrevem a enfrentá-la como se fora uma permanente inquisição sem tréguas nem remorsos.

A Igreja não pode converter a sua pregação em constantes desmentidos sobre quanto dela se diz. Tem reconhecido os erros dos seus membros. Tem tido a coragem – rara nos tempos de hoje – de pedir perdão. Sabe que a sua missão é ser impoluta na moral, e transparente nas suas acções em qualquer área que se cruze com a sociedade civil.

Vivemos um momento complexo: aceitando a verdade dos nossos pecados e dos nossos silêncios, corrigindo os erros da nossa comunicação, agradecendo os homens e mulheres que se mantêm firmes como sinais vivos de Cristo, aceitando com humildade as críticas justas que nos são feitas, e acreditando cada vez mais que “as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja”. Apesar de os pecados serem duma minoria, aceitamos vestir-nos de saco e cinza, de coração penitente pela família católica manchada com crimes execráveis de alguns. Mas sabemos separar o trigo do joio, distinguir a parte do todo e dizer que a Igreja, mesmo pecadora, continua una e santa. E que “não nos queremos ir embora”.

António Rego


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01/07/10

Entre festejos e funerais

O mundo mediático vive uma espécie de delírio, numa cadeia comunicativa interminável onde uns puxam pelos outros, notícia atrai notícia, espectáculo vence espectáculo, novela esmaga novela, ultrapassando funeral ou festa.

Jornalistas ao molhe, acontecimento ou boato, bom ou mau, aonde vão todos e todos contam depois de se acotovelarem, correrem para o primeiro título; a imagem mais forte, a primeira mão, o exclusivo, o mais sensacional. Esse carro puxado por dois cavalos – o dinheiro e o poder - corre no grande circo com a multidão a gritar pelos gladiadores, comprando, preferindo, aplaudindo, exumando cadáveres, elegendo vedetas, descobrindo segredos, violando éticas, ganhando audiências.

Mas também pondo o mundo em comunicação e festa, compondo nonas sinfonias, oferecendo rostos comovidos no canto dos seus hinos, comovendo pátrias representadas por onze peças que dançam estoicamente no relvado para colocar uma bola num espaço largo e estreito a que chamam baliza. E no corte, vibrando com a raquete de vaivém durante longas horas de luta entre atletas de eleição. E faz correr milhões em euros e dólares, apenas porque lutam mais, fintam melhor ou defendem um tiro de chumbo chegado de qualquer recanto dum relvado climatizado ou ringue de veludo para conforto e eficácia dos atletas.

Assim vivemos. Na voragem da notícia que engoliu a tragédia de ontem, divertiu a plebe e lhe desviou o olhar para outro acontecimento. Inventámos a roda, a electricidade, pusemos asas nas máquinas, enchemos o mundo de sons e imagens dentro da nossa casa e eis-nos, planeta irrequieto, nesta aventura, voragem do tempo que se compra e vende ao segundo.

É nesta estonteante viagem que se encontra e realiza o Reino. De Deus. Não vale a pena inventar outro ou aniquilá-lo a golpes de maldição. Importa remi-lo das suas misérias e celebrá-lo nas suas grandezas. Este é o nosso lugar e o nosso tempo. Sabemos a Quem iremos. E quem tem Palavra e Palavras de vida eterna.

António Rego


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23/06/10

Palavras e números

O nome de Portugal está nas bocas do mundo. Os últimos dias ficam marcados, incontornavelmente, pela morte do primeiro prémio Nobel da Literatura do país, José Saramago, assinalada pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura com discrição e abertura ao diálogo mesmo com quem se encontra mais longe das convicções que os católicos professam.

Registaram-se várias incursões em episódios passados, mais ou menos polémicos, em que o nome da Igreja esteve envolvido, embora em boa verdade a crítica de Saramago ao Cristianismo e ao texto bíblico (património de outros crentes, também) ficasse sempre limitada pelos “balizamentos ideológicos” que o referido Secretariado lamentava.

A morte do autor foi alvo de uma operação mediática gigantesca, que reduzia cada momento ao espectáculo, alimentado pelas naturais divergências que o escritor foi semeando ao longo da sua vida. A “novela” do local em que seriam depositadas as cinzas fica como exemplo de um jornalismo em que nem todos os profissionais do meio se podem rever.

Mais a Sul, o mundo olha também para Portugal, por outros motivos, igualmente mediáticos: o desempenho da selecção nacional de futebol no Mundial 2010. O jogo histórico contra a Coreia do Norte, sublinhado com sete golos, é celebrado como um feito inédito e uma prova de força, aparecendo uma multidão de novos “crentes” que, após anos de críticas à equipa, se converteram após terem presenciado esta espécie de milagre futebolístico.

O que fica para lá destes acontecimentos? Parece evidente a necessidade de encontrar um ponto de equilíbrio, que não diabolize ou divinize pessoas e números à velocidade da luz, que é a do actual mundo globalizado.

Um bom caminho está a ser sinalizado no trabalho desenvolvido e pensado pela Igreja Católica na sua relação com a cultura, em Portugal, que ganhou particular visibilidade após o notável encontro do Centro Cultural de Belém, aquando da visita de Bento XVI.

Aprender a ouvir, a falar e a calar, se for necessário, surge como um exercício particularmente difícil no mundo dos “sound bites”, em que se julga dono da razão quem gritar mais alto. Sem esse exercício, contudo, será sempre impossível ver para além da espuma dos dias…

Octávio Carmo


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15/06/10

Nação arco-íris

À distância, as expectativas só podem ser positivas. A realização de um campeonato do mundo de futebol no Continente africano gera inevitáveis esperanças para uma região à espera de conquistar dignidade, justiça e paz para a vida de todas as pessoas.

Segurança, construção de estádios e garantias de que toda a logística seria cuidada ao pormenor parecem ter sido as condições impostas por Zurique. Delas dependeria a realização de um evento global semelhante, nesta como noutra qualquer parte do mundo. Mas a escolha da África do Sul pela FIFA constitui um contributo decisivo para que o mundo conheça um povo, uma sociedade, uma Nação.
Europeus, asiáticos, africanos e, sobretudo, a mestiçagem crescente de culturas e peles. Assim se caracteriza essa "nação arco-íris", escrita, lida e vista no mundo inteiro no contexto do mundial do futebol.
África do Sul aponta como meta a reconciliação plena entre grupos e pessoas. Um ideal conquistado com o preço do sangue de muitos negros e, agora, de brancos. Sobretudo com a capacidade de perdoar, persistentemente afirmada detrás das grades por Mandela, à espera, em cada dia que passa, de um número crescente de seguidores. Na coragem do perdão, que martiriza, encontram-se as mais frutuosas sementes da feliz convivência entre povos, culturas, raças, etnias. Da vida em democracia.
Marca essencial da experiência cristã em qualquer parte do mundo, a promoção da reconciliação, o exercício do perdão merece todo o empenho entre as igrejas cristãs sul-africanas, onde o trabalho da Comissão Verdade e Reconciliação tem sido, desde 1995, fundamental para registar e resolver casos graves de violações de direitos humanos.
Mulheres e homens da Igreja Católica, missionários brancos, foram os primeiros a "invadir" guetos de africanos, aprendendo com eles, promovendo no seu interior a reconciliação.
Pastoral que continuam, por estes dias, também a partir do futebol. São disso exemplo o campeonato pela paz, o "Soccer Peace Tournament" entre adeptos de diferentes bairros, ricos ou pobres, ou o trabalho da rede "Talitha Kum", na prevenção e luta contra o tráfico de pessoas, ou ainda a iniciativa "Church on the ball", da Igreja Católica na África do Sul, para valorizar o desporto e acolher quem visita o país.
Se o mundial de futebol for um contributo efectivo para a plena reconciliação, são os africanos, do Sul ou do Norte, os grandes vencedores.
Paulo Rocha


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