02/05/12

«Sinto-me amputado»

Quando se fala em Nova Evangelização vem a propósito assumir o compromisso de evangelizar o social A reestruturação da empresa onde trabalhava colocou um amigo de longa data no desemprego. As condições da saída e a estrutura familiar constituem uma almofada que não tornam dramáticos os seus tempos mais próximos. Apresenta- se, apesar disso, visivelmente afetado. Explicou-me o que lhe vai na alma: “nem imaginas quanto me custam as passagens periódicas pelo Centro de Emprego... Enquanto espero, sinto que uma estranha deficiência me atingiu, após acidente sem culpa. Acreditas que tenho vergonha?” As minhas palavras não têm valido de nada: reafirma em cada conversa a sua condição de “amputado”. De facto, sempre sentiu o trabalho como um direito, um dever, um contributo e não apenas como uma fonte de rendimentos – protestando a injustiça de se ver transformado numa “despesa a reduzir”... Admite que o patrão também viveu momentos de angústia e se pode ter sentido sem alternativa. Mas, em todo o caso, reafirma que são indisfarçáveis as dores… Se ouvirmos amputações e dores, ganha alma o debate do desempregos - tantas vezes traduzido em percentagens e números, sem olhos, nem família; ou em pouco menos que estéreis indignações. Com 202 milhões de desempregado em todo o mundo e o mercado em ponto morto, parece um ideal fora de alcance; mas importa não perder de vista a obrigação de tudo fazer para que todos tenham acesso ao trabalho e o possam assegurar. O emprego tem de ser uma prioridade social. E, neste esforço, cabe importante papel aos cristãos, cuja obrigação é lutar contra tudo o que afeta a pessoa, pois acreditam num Deus solidário com o homem. Não comunga desta visão quem olha o trabalho como simples mercadoria, que se regulamenta ou desregulamenta com a mesma facilidade, esquecendo que se trata de uma dimensão essencial da existência do homem sobre a terra. Ou quem considera o homem um mero instrumento de produção e não uma pessoa, cujos ritmos, tempos e condições há que respeitar. Quando se fala em Nova Evangelização vem a propósito assumir o compromisso de evangelizar o social, divulgando a Doutrina Social da Igreja e assim criando um clima de pensamento moral num tempo de desequilíbrios e gritantes desigualdades. Muitos o fazem. Nesta edição de Ecclesia fala-se de gente que, num contexto de enorme crise de confiança, não se fecha no individualismo; pelo contrário, compromete- se em ações solidárias. Alguns atrevem-se mesmo a investir para manter e criar emprego, pregando, por gestos e não por meras palavras, a esperança numa vida melhor, mediante uma economia social e solidária. João Aguiar Campos

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