10/03/11

A Paixão segundo Ratzinger

Este homem conjuga a fé, a investigação teológica e dimensão histórica de Jesus e oferece em cada intervenção uma pista de reflexão sobre os tesouros da fé que sempre precisam ser aprofundados

Com os mais variados títulos e comentários, nenhum dos grandes jornais de referência do Ocidente ignorou a notícia do lançamento do segundo volume do livro de Bento XVI sobre a vida de Jesus. Parece à primeira vista que um Papa nada de novo teria a dizer acerca uma figura histórica e teologicamente completa. E todavia foi notícia. Exactamente porque este Papa diz muito para além do óbvio e do já dito.

Tal como o primeiro volume, pode deixar alguma perplexidade sobre a dimensão do magistério do Sucessor de Pedro. Mas a verdade é que um teólogo não perde o direito à investigação pelo facto de ser Papa. E, como tem sido vastamente comentado, este homem conjuga a fé, a investigação teológica e dimensão histórica de Jesus e oferece em cada intervenção uma pista de reflexão sobre os tesouros da fé que sempre precisam ser aprofundados.

Já foram facultados alguns excertos deste segundo volume. Uma figura surge com um novo olhar e uma nova lição sobre o mistério de Deus: Judas. Por que terá Jesus escolhido este homem para o colégio dos Doze e que mistério terá acontecido em traição, arrependimento e desespero no coração de alguém convidado a viver uma experiência única de proximidade com Jesus? Bento XVI lança um novo olhar. Cito e traduzo livremente: Jesus tinha entrado no coração de Judas. E Judas dá o primeiro passo para a conversão: reconhece o seu pecado. Tudo o que de puro e grande recebera de Jesus está na sua alma. Nunca o poderia esquecer. A segunda tragédia, depois da traição, foi não acreditar no perdão. Assim, perdeu-se nas suas trevas…

Este itinerário do pecado ao perdão tem a ver com os cristãos de todos os tempos. E obviamente connosco, com o tempo de Quaresma que nos é dado viver. Só a medida exacta da vocação e dignidade do homem torna possível esta viagem sem tragédia. A experiência de proximidade com a figura de Jesus nunca deixa o homem pecador longe da misericórdia de Deus. A menos que ele se feche numa visão megalómana e solitária de si mesmo, que bloqueia a esperança no perdão. E na certeza de que a misericórdia está do outro lado. Do lado de Deus. Não na nossa importância e no nosso mérito. Esta Paixão segundo Ratzinger ajuda a melhor compreender o homem e o caminho de aproximação a Deus.

António Rego




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