11/01/11

Aprenderemos a flutuar?

(...) a grande mudança, aquela mais poderosamente criativa, a que deixa, de facto, a mais impressiva marca continuará a ser a que ocorre no interior de nós.

Não sei que fronteira separa aqui a realidade da ficção, mas aceito escutar, entre a literatura que as revistas nos servem no Ano Novo, o que o século XXI trará à reinvenção dos quotidianos. Garantem-nos que, de uma forma ou de outra, nos converteremos todos em "tech-nómadas". Que reaprenderemos a arrumar os nossos pertences e passaremos a viajar com uma mala só. Que navegaremos pela Web de um modo mais articulado, inteligente e portátil, mas também que voltaremos a andar descalços. Que a ideia de propriedade ou o registo das patentes vão ser reequacionados, pois entraremos cada vez mais num tempo de "difusão em contínuo e à distância". Que aprenderemos igualmente a relati-vizar o tempo. Que tentaremos de modo mais organizado "desinto-xicarmo-nos do dinheiro", como já se diz, dando um outro valor ao intercâmbio e à reciprocidade. Que as pequenas lojas de proximidade vão substituir as grandes superfícies. Que aprenderemos a reconverter com maleabilidade carreiras e profissões. Que andaremos mais à boleia. Que criaremos uma relação com os animais ditos selvagens não baseada no medo e montaremos mais vezes o nosso acampamento em florestas e savanas. Que a tecnologia de impressão 3D será em breve considerada mais útil e durável que a fabricação tradicional do plástico. Que todos os nossos móveis serão de cartão e reciclar tornar-se-á prática corrente. Que as nossas casas desafiarão a gravidade, descolando-se em parte do apoio do solo e encontrando formas espantosamente leves. Que mesmo o vestuário de cerimónia passará a permitir uma elasticidade maior de movimentos. Que nós próprios aprenderemos a flutuar. Que os velhos eléctricos e autocarros deixarão as garagens e serão transformados em restaurantes para uma aventura gastronómica original. Que os museus perderão uma certa ambiência estática e serão transformados em instalações oníricas. Que nos reconciliaremos com as nossas identidades.
Qualquer que venha a ser o formato dos nossos quotidianos sabemos, contudo, que a grande mudança, aquela mais poderosamente criativa, a que deixa, de facto, a mais impressiva marca continuará a ser a que ocorre no interior de nós.

José Tolentino Mendonça

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