23/11/10

Luzes

Nesta situação, surge a oportunidade de voltar ao essencial, ao que está no coração de cada acontecimento

Os tempos são de pouca luz. A crise, essa sombra persistente que teima em acompanhar o quotidiano dos portugueses, obriga sistematicamente a cortes, cada vez mais cortes, e é sem surpresa que vemos chegar essa lógica à celebração do Natal.

Naturalmente, nenhum dos que durante tantos anos criticou a progressiva comercialização e até folclorização de uma festa tão importante para a fé cristã pode vir agora lamentar algum esvaziamento nas decorações das ruas ou a quebra das vendas nesta quadra, depois de tanto se ter apontado o dedo à febre consumista pré-25 de Dezembro.

Cada um é convidado a esvaziar o lixo que foi acumulando à volta desta celebração e a dispensar tudo o que é supérfluo, para ir ao encontro da diferença, da luz que não tem preço e que, por isso, não se apaga. Tudo o resto tem de regressar ao seu verdadeiro lugar e, se for esse o caso, desaparecer.

Nesta situação, surge a oportunidade de voltar ao essencial, ao que está no coração de cada acontecimento e, sobretudo, do Acontecimento: o nascimento de Deus, feito homem entre nós.

Faltam ainda várias semanas e, simbolicamente, Bento XVI convocou a Igreja para iniciar o tempo litúrgico de preparação para o Natal com uma vigília pela vida nascente, a mais indefesa, aquela que não se vê ou que não se quer ver. No fundo, fala-se também de um regresso ao essencial, do reconhecimento da humanidade que existe no próximo, independentemente da situação em que se encontre.

Este é um exercício fundamental no nosso quotidiano e pode servir, sem dúvida, para iluminar dias tristonhos e atabalhoados, em que somos constantemente atropelados pela velocidade dos actos e das palavras, mesmo aquelas que não são ditas.

Curiosamente, por estes dias, é de outra luz, a «Luz do mundo», de que se fala. Do que Bento XVI disse ou não sobre os mais diversos temas, das revoluções amplamente saudadas ainda que não o sejam. Mais uma vez, o essencial aqui é diferente: é a oportunidade de nos encontrarmos com este Papa, pelas suas palavras, com um pensamento que é e será referência para a teologia católica.

As surpresas, como é evidente, estão onde menos se espera. Assim se faça luz.

Octávio Carmo


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