08/02/12

O Espírito e a geografia curial

Creio, sobretudo, que o Espírito continua a ser capaz de entrar em todas as salas, estejam ou não abertas as portas, suscitando impertinências que nunca O deixam prisioneiro

Realiza-se, dentro de dias, o IV Consistório do papado de Bento XVI. Nele serão criados 22 novos cardeais.

Em Portugal olhamos para o acontecimento com um misto de alegria nacional e eclesial, pois entre os eleitos está o vimaranense D. Manuel Monteiro de Castro.

É normal este regozijo. É, aliás, compreensível que, especialmente em momentos de crise, todos os pretextos sejam bons para levantar o ego e fazer festa. Com uma ressalva, porém: que não se esqueçam, nas dobras do bairrismo, os méritos do eleito - uma vez que a sua escolha pressupõe uma vida pautada por sã doutrina, costumes, piedade e prudência. Nem se desvalorize, na alusão a trabalhos específicos, a grande responsabilidade de eleger um novo Papa; nem esse outro papel que Bento XVI fez questão de apontar no anúncio do Consistório: «os Cardeais têm a tarefa de ajudar o Sucessor de Pedro no cumprimento do seu Ministério de confirmar os irmãos na fé e de ser o princípio e fundamento da unidade e da comunhão da Igreja».

Dito isto, uma palavra para as neblinas em torno da reunião de 18 de fevereiro; sobretudo as que se erguem dos vales de quantos gostam, também na vida da Igreja, de análises geoestratégicas e estatísticas…

Concorde-se ou não, a verdade é que em torno da escolha dos novos cardeais abundam leituras e interpretações.

Realçam, uns, o peso dos italianos e dos funcionários da Cúria e, em contrapartida, uma menor «consideração» pelas Igrejas de África e América Latina, falando mesmo em «escassa universalidade». Outros, ou os mesmos, analisam o perfil dos eleitos, para concluírem que a presença de gestores ultrapassa a de teólogos.

Se se atender aos números, estes parecem dar razão a quem assim pensa. Entendo, porém, que é injusto considerar que o Papa está distraído ou menos interessado no contributo que pode receber de quem vive geograficamente mais longe ou se confronta com realidades diversas. Mas creio, sobretudo, que o Espírito continua a ser capaz de entrar em todas as salas, estejam ou não abertas as portas, suscitando impertinências que nunca O deixam prisioneiro.

Sem prescindir, por isso, do legítimo desejo de ver no Colégio de Cardeais mais Padres e Pastores de Igrejas particulares, faço minha a oração de Louis Fromy, leitor do “La Croix”: «que o Espírito inspire aos cardeais um sensus ecclesiae atual, realista e... missionário».

Isto vence qualquer «geografia curial».

Padre João Aguiar Campos

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