30/03/11

Nº 56

Para que tudo aconteça ao contrário - afinal o que deseja genuinamente a pessoa humana - é necessário permitir que «Deus tenha lugar na esfera pública»

Esperança e perplexidade cruzam-se nos olhares sobre o amanhã. A projecção de tempos próximos na comunidade nacional, na família, no trabalho, na educação, na história de cada pessoa permanece frequentemente presa aos horizontes ditados pela divulgação mediática do presente e do futuro, muito determinados por factores circunstanciais que influenciam decisões históricas, mas pouco passam para a História.

Uma equação que raramente inclui Deus. Nesses casos, quando Deus não tem o “estatuto de cidadania”, não acontece o “encontro entre as pessoas” em “colaboração para o progresso da humanidade”, a “vida pública torna-se pobre de motivações”, a política assume “um rosto oprimente e agressivo”, os “direitos humanos correm o risco de não ser respeitados”, perde-se a “possibilidade de diálogo fecundo e uma profícua colaboração entre razão e fé religiosa”, a política assume-se “omnipotente” e o desenvolvimento é afectado por “um custo muito gravoso”.

Para que tudo aconteça ao contrário – afinal o que deseja genuinamente a pessoa humana – é necessário permitir que “Deus tenha lugar na esfera pública”. O que se traduz na possibilidade de incluir Deus “nas dimensões cultural, social, económica e particularmente política” de cada sociedade.

Como? - Com a ajuda da razão, porque “a religião precisa sempre de ser purificada pela razão, para mostrar o seu autêntico rosto humano”.

Um percurso reflexivo proposto por um único número da Encíclica Caritas in Veritate, de Bento XVI: o nº 56.

Sem querer analisar situações específicas do contexto presente, a proposta assim formulada pelo Papa poderia ajudar a resolver muitas delas.

Paulo Rocha

PS. A partir do próximo dia 1 de Abril, a Agência Ecclesia normaliza os conteúdos que produz pelo Livro de Estilo da Agência Ecclesia. As notícias publicadas em www.agencia.ecclesia.pt, distribuídas nas duas newsletters diárias e no Semanário obedecem ao estilo aí definido.

Para a redacção do Livro de Estilo contribuiu decisivamente a colaboração do jornalista João Pinheiro de Almeida, que dinamizou o debate em torno da importância e dos conteúdos deste instrumento na redacção de uma agência de notícias, actualizando sucessivamente o documento com os resultados das sessões de trabalho que, ao longo de quase um ano, a Agência Ecclesia foi realizando entre todos os jornalistas que a integram. Por tudo, um sincero obrigado da Agência Ecclesia!

O dia 1 de Abril de 2011 marca também o início da publicação dos vários conteúdos Ecclesia segundo o novo Acordo Ortográfico.




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22/03/11

Na Rota das Catedrais

O projecto Rota das Catedrais constitui uma oportunidade única de valorização. Valorização do edificado, mas também das comunidades, dos fiéis e dos visitantes

A crescente procura de propostas culturais em torno do património religioso português, tem levado a Igreja a procurar, em conformidade, acolher os seus visitantes de modo qualificado. Pese embora as dificuldades sentidas, a sua potenciação cultural é cada vez mais uma realidade.

Factor estratégico e de desenvolvimento inequívoco, preconiza, sem dúvida, a consciência de uma urgente, e há muito reclamada, política de gestão e conservação do património da Igreja Católica em Portugal.

O projecto Rota das Catedrais constitui, neste estrito sentido, uma oportunidade única de valorização. Valorização do edificado, mas também das comunidades, dos fiéis e dos visitantes.

Materializando o empenho da Igreja na promoção do seu património, assim como o desejo de o colocar ao serviço de todos, Igreja e Estado unem-se num acordo histórico. Tendo por horizonte a implementação de objectivos comuns, capazes de conciliar vertentes de há muito indissociadas, as Catedrais portuguesas concorrem agora para um "desenvolvimento sustentável e integrado, profundamente po-tenciador de sinergias em domínios transversais à vida comunitária".

Património que urge ser fruído, numa moldura de reabilitação patrimonial, investigação qualificada e melhoramentos vários na oferta ao visitante, aqui se evidencia - ambiciosa missão - um indispensável ponto de equilíbrio, entre os pressupostos de natureza religiosa, cultural e turística.

Promover a estima colectiva, devolver os monumentos à comunidade, envolvê-la na protecção e valorização do património, são alguns dos muitos desafios lançados por este projecto, verdadeiramente nacional.

Sandra Costa Saldanha



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15/03/11

Podemos passar ao lado da Primavera?

A história, atravessada pelo dinamismo do Reino de Deus, não se reduz a um monte de implacáveis cinzas. Estamos, sim, prometidos à Primavera

Com o tempo da Quaresma começa para os cristãos o acordar da Primavera. Na natureza já não se conseguem esconder os sinais da sua presença: das árvores de grande porte à mais singela flor tudo parece despertar da penumbra do inverno. Sentimo-nos como naquela passagem da Carta aos Hebreus, que diz: «estamos envolvidos por uma nuvem de testemunhas». De facto, o grande alvoroço de vida com que a criação, a nosso lado, se reveste, constitui um desafio que vai directo ao interior de nós. Podemos passar ao lado da Primavera sem reflorir?

A chave do nosso florescimento é Cristo. É Ele que permite ao Homem, sendo velho, nascer de novo. De junto do Pai, Ele envia-nos o Espírito que nos conduz à verdade plena. O Espírito desmonta o nosso fatalismo em relação a nós e à história, desarmando as declarações que fazemos sobre o que é impossível. Talvez achemos que não nos é possível renascer. Talvez nos pareçam impossíveis as transformações essenciais: as que nos conduzem ao perdão e ao dom, à gratuidade do amor e do serviço, ao mistério da prece e da esperança. E, contudo, o Espírito Daquele que morreu numa cruz e ressuscitou não deixa de proclamar o contrário. O Homem não está condenado ao peso da sua sombra ou a um crepúsculo de cinismo e desistência. A história, atravessada pelo dinamismo do Reino de Deus, não se reduz a um monte de implacáveis cinzas. Estamos, sim, prometidos à Primavera.

O tempo da Quaresma é um grande momento de profissão de Fé e, simultaneamente, um tempo muito prático. Às portas das nossas Igrejas poderíamos colocar uma tabuleta: «Obras em curso». A Quaresma é um estaleiro. Nesse sentido, a tradição cristã oferece-nos três meios, de extraordinária simplicidade, mas de consistente verdade. Primeiro a oração: somos chamados a rezar, isto é, a expormo-nos a Deus sem máscaras, em atitude de acolhimento e de escuta. Depois, somos chamados ao jejum. O nosso eu facilmente se torna tirânico nas suas reivindicações, rapidamente soçobra sequestrado por uma cultura que estimula falsas necessidades e apetites, frequentemente se acha mais do lado dos direitos que dos deveres. O jejum, através de gestos concretos de renúncia, contraria esta lógica e devolve-nos um salutar sentido crítico em relação ao que estamos a ser e àquilo de que nos alimentamos. Por fim, a esmola é a expressão do dom de nós mesmos, se quisermos ser discípulos Daquele que se deu até ao fim.

José Tolentino Mendonça



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10/03/11

A Paixão segundo Ratzinger

Este homem conjuga a fé, a investigação teológica e dimensão histórica de Jesus e oferece em cada intervenção uma pista de reflexão sobre os tesouros da fé que sempre precisam ser aprofundados

Com os mais variados títulos e comentários, nenhum dos grandes jornais de referência do Ocidente ignorou a notícia do lançamento do segundo volume do livro de Bento XVI sobre a vida de Jesus. Parece à primeira vista que um Papa nada de novo teria a dizer acerca uma figura histórica e teologicamente completa. E todavia foi notícia. Exactamente porque este Papa diz muito para além do óbvio e do já dito.

Tal como o primeiro volume, pode deixar alguma perplexidade sobre a dimensão do magistério do Sucessor de Pedro. Mas a verdade é que um teólogo não perde o direito à investigação pelo facto de ser Papa. E, como tem sido vastamente comentado, este homem conjuga a fé, a investigação teológica e dimensão histórica de Jesus e oferece em cada intervenção uma pista de reflexão sobre os tesouros da fé que sempre precisam ser aprofundados.

Já foram facultados alguns excertos deste segundo volume. Uma figura surge com um novo olhar e uma nova lição sobre o mistério de Deus: Judas. Por que terá Jesus escolhido este homem para o colégio dos Doze e que mistério terá acontecido em traição, arrependimento e desespero no coração de alguém convidado a viver uma experiência única de proximidade com Jesus? Bento XVI lança um novo olhar. Cito e traduzo livremente: Jesus tinha entrado no coração de Judas. E Judas dá o primeiro passo para a conversão: reconhece o seu pecado. Tudo o que de puro e grande recebera de Jesus está na sua alma. Nunca o poderia esquecer. A segunda tragédia, depois da traição, foi não acreditar no perdão. Assim, perdeu-se nas suas trevas…

Este itinerário do pecado ao perdão tem a ver com os cristãos de todos os tempos. E obviamente connosco, com o tempo de Quaresma que nos é dado viver. Só a medida exacta da vocação e dignidade do homem torna possível esta viagem sem tragédia. A experiência de proximidade com a figura de Jesus nunca deixa o homem pecador longe da misericórdia de Deus. A menos que ele se feche numa visão megalómana e solitária de si mesmo, que bloqueia a esperança no perdão. E na certeza de que a misericórdia está do outro lado. Do lado de Deus. Não na nossa importância e no nosso mérito. Esta Paixão segundo Ratzinger ajuda a melhor compreender o homem e o caminho de aproximação a Deus.

António Rego





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03/03/11

Jesus de Nazaré

Num momento em que, cada vez mais, os «15 minutos de fama» se aproximam de «15 segundos de fama», contar e recontar uma história com mais de dois mil anos parece um contra-senso

Lembro-me muitas vezes de uma passagem cinematográfica que apresentava Jesus, regressado à terra, em plena televisão, perante uma audiência mundial: no primeiro dia, a sua aparição batia todos os recordes, mas nos dias seguintes, os números iam descendo, até se confundir a sua presença com outro qualquer produto mediático. Não registei o nome do filme, mas são imagens que me têm acompanhado, sempre que o assunto é este.

Num momento em que, cada vez mais, os «15 minutos de fama» se aproximam de «15 segundos de fama», contar e recontar uma história com mais de dois mil anos parece um contra-senso. Mas acredito que há sempre uma boa justificação quando o protagonista é Jesus de Nazaré.

O fascínio que a figura de Jesus – e a fé dos seus seguidores, ao longo de dois milénios – exerce sobre crentes e não crentes tem sido explicado das mais diversas formas e é legítimo questionar o que pode significar, verdadeiramente, para os dias de hoje, a vida daquele que, para os cristãos, é Deus feito homem.

Reconheça-se que, desde o início do cristianismo, muitas foram as divisões que o entendimento do próprio Jesus Cristo provocou. Algumas dessas heresias e correntes de pensamento nunca se afastaram do fundo cultural e mesmo religioso de muitas populações, incluindo em Portugal, onde o arianismo – doutrina que negava a divindade de Cristo, reduzindo-o a simples enviado do Pai - teve forte implantação.

Bento XVI vai apresentar, em breve, a segunda parte do seu livro sobre a vida de Jesus e não pode admirar que a sua grande obra literária – que não interrompeu após a eleição pontifícia – seja centrada naquele que sustenta e anima toda a vida da Igreja.

Outros autores e polémicas se lhe seguirão - alguns aproveitando o período da Quaresma, como tem sido hábito nos últimos anos, para desenterrar escritos ou achados arqueológicos que supostamente colocam em causa toda a estrutura do catolicismo.

Sabemos ainda que muitos têm optado pela táctica «wikileaks»: declarações são tomadas como factos para que haja “revelações” e não apenas a mera constatação de uma opinião.

Aos que acreditam resta estar preparados e, sobretudo, aprender: não se pode nunca pressupor que aquilo que sabemos é suficiente e os desafios que a ignorância - própria ou alheia - pode levantar devem ser vistos com humildade. Dois mil anos depois, afinal, ainda há muito para descobrir.

Octávio Carmo




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01/03/11

Que mundo este, onde para ser escravo é preciso estudar!

O conformismo alimenta o esquecimento. À falta de esperança junta-se um entorpecedor sentimento de abandono

Num tempo em que se extrema a dicotomia entre a educação que temos e as expectativas com que sonhamos, a nova canção dos Deolinda vem retomar o tema. “Parva que sou” está nas redes sociais, gerando uma reacção intensa e espontânea. Alguém denuncia, finalmente, a condição de milhares de jovens, numa síntese clara dos seus problemas reais.

Já considerada como o hino de uma geração à deriva, afastada dos seus sonhos, que vive a prazo, que adia o futuro, que só conhece a precariedade como modelo de vida e para o trabalho. As posições demarcam-se e, como noutros tempos, há também quem nela veja um hino aos ‘’direitos adquiridos’’ e aos ‘’empregos para a vida’’. Mas o argumento não colhe, nem tão pouco serve para aniquilar toda uma geração, ou melhor, várias.

Muitos protestos se têm sustentado em canções panfletárias ou de intervenção. Para os que já viveram alguns, esta vem apenas recordar um problema antigo. A tal “geração sem remuneração”, a “dos recibos verdes”, não é a do século XXI. Não há memória, aliás, de que as anteriores alguma vez tivessem melhor enquadramento. Só para recordar os anos recentes, de uma geração “perdida”, depressa passámos a uma geração “rasca”, até uma outra “à rasca”. Os Deolinda propõe uma geração “parva”, porventura, a mais qualificada de sempre.

Nada disto é novo. Nem o conceito, nem as orientações. Os mais velhos já se lançaram à aventura, os mais novos trilham o caminho. Em comum, todos têm por adquirido que o paradigma não é, nem será, o que lhes ensinaram.

Que têm feito as instituições? Que têm feito os jovens? O conformismo alimenta o esquecimento. À falta de esperança junta-se um entorpecedor sentimento de abandono. Um amigo desabafava: “Finalmente vejo alguém dizer exactamente o que se passa com a geração a que pertenço. Precários é uma forma evoluída de dizer abandonados!”

O verdadeiro debate, esse sim, continua por fazer. A crise propicia esta inércia, alimenta o alheamento, justifica a desresponsabilização. Pois, está mau para todos! Não se aposta, não se potenciam capacidades. Porquê? Como esperar um retorno sem investimento? Demasiadas questões, para um debate quimérico!

É urgente discutir o tema e repensar valores. Na sua missão, a Igreja pode ter um desempenho acrescido. Mostrando-se exemplar na actuação, naturalmente, mas também marcando posição, lançando o debate, apoiando e ouvindo.

Sandra Costa Saldanha


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